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Cecília Padilha traz o Hotel das Cataratas: outra perspectiva sobre as quedas do Iguaçu.

03.11.2026 · revistadogramado

Instalado dentro do Parque Nacional do Iguaçu, o hotel da Belmond permite observar as cataratas em diferentes horários, explorar a Mata Atlântica e conhecer uma cozinha brasileira contemporânea assinada pelo chef Luiz Filipe Souza.

Há uma diferença entre visitar as Cataratas do Iguaçu e acordar diante delas. Para quem chega ao parque durante o horário regular de funcionamento, o passeio costuma seguir uma sequência tradicional: percorrer as passarelas, parar nos mirantes e fotografar as quedas antes de seguir para a próxima atração. Hospedar-se no Hotel das Cataratas, a Belmond Hotel, em Foz do Iguaçu, no Paraná, permite fazer tudo isso como parte integrante do conjunto.

Único hotel localizado dentro do Parque Nacional do Iguaçu, o empreendimento tem como principal diferencial a possibilidade de acompanhar a paisagem em diferentes momentos do dia, inclusive quando o parque já fechou para os visitantes em geral, respeitadas as regras de acesso e as áreas autorizadas. A experiência muda conforme a luz, o clima e o movimento ao redor. Pela manhã, antes da abertura ao público, as passarelas ficam mais tranquilas, favorecendo fotografias sem grandes aglomerações. Ao entardecer, os tons do céu alteram a aparência da água e da vegetação.

À noite, a paisagem se transforma mais uma vez. Em períodos de lua cheia, quando o céu está limpo, a luminosidade natural pode revelar os contornos das quedas e criar reflexos sobre a água. É um espetáculo diferente daquele observado durante o dia, que depende das condições meteorológicas, mas vale a atenção de quem tem a oportunidade de permanecer no local. Em vez de concentrar a visita em poucas horas, o hóspede pode retornar aos mirantes e descobrir como a mesma paisagem se transforma.

Brasilidade nos ambientes

Restaurado para preservar o charme original dos anos 1950, o hotel mantém uma arquitetura de inspiração colonial, com fachada rosada e características que remetem às antigas casas de fazenda. Nos interiores, a decoração combina referências clássicas com elementos brasileiros, criando ambientes acolhedores sem recorrer a um padrão internacional que poderia estar em qualquer destino.

Nos quartos, a brasilidade aparece nos materiais, nas cores e nos detalhes decorativos. A proposta estabelece uma relação com a natureza e com a cultura local. A madeira e as tonalidades naturais ajudam a compor espaços que convidam ao descanso depois de um dia de caminhadas e passeios.

São 187 apartamentos e suítes em uma propriedade cercada por um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica da América do Sul. O parque, declarado Patrimônio Mundial Natural pela UNESCO em 1986, abriga as cataratas reconhecidas como uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo. Em 2025, o hotel recebeu três Chaves Michelin, distinção concedida a estabelecimentos que oferecem experiências de hospedagem excepcionais.

Entre aves e outros animais

A circulação de veículos dentro do parque exige atenção. As vans do hotel respeitam o limite de velocidade de 30 km/h, importante em uma área onde animais silvestres podem atravessar as vias. Entre as histórias contadas por hóspedes e funcionários estão avistamentos de onças nas proximidades. Encontrar um desses felinos é raro e depende de sorte, mas a possibilidade lembra que o hotel está instalado em uma área natural protegida.

As aves são presenças mais frequentes. Tucanos e espécies de diferentes cores podem ser vistos entre as árvores, quem sabe até mesmo nas árvores de dentro do hotel. Observar seus movimentos é parte do passeio para quem percorre o entorno, com um lindo contraste das mais variadas cores. A diversidade da avifauna da Mata Atlântica também pode ser conhecida no Parque das Aves, instituição independente localizada nas proximidades da entrada do parque nacional. O espaço desenvolve atividades de conservação e acolhe espécies ameaçadas de extinção, permitindo observar de perto aves que nem sempre aparecem durante uma caminhada pela floresta.

Outra opção para explorar os arredores é fazer um passeio de bicicleta pelos percursos autorizados. A atividade oferece uma perspectiva diferente da visita feita exclusivamente pelas passarelas, para perceber a vegetação e as mudanças da paisagem.

Entre as experiências organizadas pelo hotel está também o piquenique no gramado diante das cataratas, preparado pela equipe para o fim da tarde. Um brinde com comidinhas e uma vista privilegiada. O atrativo está em permanecer diante das quedas enquanto a luz muda e observar a névoa e acompanhar as transformações do céu.

O pôr do sol costuma proporcionar boas fotos, com contrastes e tonalidades diferentes das encontradas no meio do dia. O resultado varia de acordo com o clima, mas a possibilidade de contemplar a paisagem sem precisar percorrer outro trecho do parque torna o programa uma alternativa interessante para encerrar o dia.

A cozinha brasileira do restaurante Y

A gastronomia também ocupa lugar de destaque no hotel. Em 2024, foi inaugurado o restaurante Y, pronunciado “i”, primeiro projeto do chef Luiz Filipe Souza fora de São Paulo, onde comanda o EVVAI, com três estrelas Michelin.

No Y, o chef desenvolve uma cozinha criativa brasileira, baseada em ingredientes, técnicas e referências de diferentes regiões do país. A proposta é trabalhar receitas e produtos conhecidos sob outra perspectiva, explorando combinações e apresentações contemporâneas sem perder de vista suas origens.

O nome do restaurante remete à água em Guarani e à relação do elemento com a região. A referência também se conecta à palavra Iguaçu, associada à ideia de “água grande”, e à proximidade dos rios que marcam a paisagem da tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.

O salão principal tem mobiliário de madeira brasileira em diferentes tonalidades eluminárias de palha trançada. Os elementos visuais dialogam com as cores da Mata Atlântica dos arredores da propriedade.

O cardápio reúne releituras de preparos nacionais, como barreado, moqueca e pratoscom pirarucu e açaí. Entre as criações está também um ovo dourado com tucupi e mandioca, combinação que faz referência a ingredientes da cultura alimentar amazônica e indígena. A ideia é investigar as possibilidades dos produtos brasileiros por meio de técnicas e texturas diferentes.

O restaurante também promove encontros com chefs convidados de diferentes lugares, com o intercâmbio de cozinhas. Entre os nomes que participaram dessa proposta está a peruana Pía León, reconhecida internacionalmente pelo trabalho no Kjolle, em Lima, e pela pesquisa de ingredientes e biodiversidade do Peru. A colaboração aproxima duas cozinhas sul-americanas que têm na diversidade de seus produtos uma fonte importante de investigação.

 

Um aperitivo com vista

A experiência gastronômica pode começar no Terraço Y, instalado na varanda do hotel e dedicado a aperitivos, snacks e bebidas. O espaço tem vista para as cataratas e funciona como alternativa para quem deseja acompanhar o fim da tarde sem necessariamente fazer uma refeição completa no restaurante.

O cardápio assinado por Luiz Filipe inclui ostras com granita de goiaba, pimenta-rosa e coentro, caviar da região do Rio Negro servido sobre blinis de tapioca e tempurá de folhas da Mata Atlântica com molho de cupuaçu. Há ainda opções de petiscos, como pastéis de palmito e bolinhos de moqueca e caranguejo.

A carta de coquetéis é assinada por Matheus Gusman, bartender também ligado ao EVVAI. Os drinques revisitados incorporam ingredientes brasileiros, enquanto a seleção de bebidas inclui vinhos, champanhes, espumantes e opções sem álcool.

A combinação de hospedagem e gastronomia permite organizar a estadia sem precisar sair do parque para cada atividade. É possível alternar caminhadas, passeios de bicicleta, observação de aves e momentos à mesa, reservando tempo para voltar às cataratas em horários diferentes.

No Hotel das Cataratas, a localização não é apenas um atributo da propriedade. É o que torna possível perceber que as quedas não oferecem sempre o mesmo espetáculo. A luz da manhã, as cores do entardecer e a paisagem noturna apresentam cenários distintos, enquanto a floresta ao redor mantém seu próprio ritmo. Para quem permanece mais de uma noite, a experiência está justamente em observar essas mudanças sem a pressa de cumprir um roteiro.

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